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Silência na “República Curitiba”

 

Na sexta-feira em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou a sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde ficou preso por 580 dias, não se viu um único apoiador da Operação Lava Jato nem no entorno da PF, onde estava instalada a “Vigília Lula Livre”, em apoio ao petista; nem na praça em frente à Justiça Federal, que, no auge da operação, reunia uma legião de entusiastas da investigação. Diante do prédio do Judiciário, uma placa de cerca de três metros de altura em favor da “CPI da Lava Toga” era o último resquício do “Acampamento da Justiça”, onde se reuniam nos últimos anos os defensores da Lava Jato. No início da tarde de 8 de novembro, o marco foi posto abaixo por um pequeno grupo de manifestantes que vestiam camisetas vermelhas. Ninguém reagiu. 

Preso mais ilustre da “República de Curitiba”, Lula passou sua última hora e meia na PF de bermuda, usando chinelo de dedo e camiseta colorida. Escolheu o que levaria consigo quando saísse da prisão: algumas roupas e medicamentos, que colocou em uma mala. O restante seria recolhido por auxiliares nos dias seguintes. Naquela tarde, depois que o alvará de soltura foi expedido, às 16h16, o ex-presidente, reunido com aliados e advogados, mencionou mais de uma vez sua intenção em falar com os militantes em frente à PF. Vestiu uma camiseta azul-marinho, um terno preto e saiu do prédio por volta das 17h40 de sexta-feira (8/11). Assim que cruzou o portão, foi abraçado pela filha, Lurian Cordeiro Lula da Silva, posou rapidamente para fotos e foi conduzido a um palco instalado na vigília, trinta metros adiante, onde faria seu primeiro discurso em liberdade.

O acampamento pró-Lula nasceu em 7 de abril de 2018, mesmo dia em que o ex-presidente foi  preso, e se manteve pelos 580 dias de prisão. Rigorosamente todos os dias, os militantes saudavam o líder petista dando bom-dia, boa-tarde e boa-noite. O espaço recebia caravanas de todos os cantos do país, além de visitas de apoiadores como a escritora Pilar Del Rio, o sociólogo italiano Domenico de Masi e o cantor e compositor Chico Buarque. A vigília mudou a rotina do bairro Santa Cândida, na área Norte de Curitiba, e provocou tensão com moradores.

A cinco quilômetros dali, no bairro do Ahú, na região central, o “Acampamento da Justiça”, em frente ao prédio da Justiça Federal, funcionava como centro de apoio à Lava Jato, ao então juiz federal Sergio Moro e ao procurador Deltan Dallagnol. A mobilização começou em 16 de março de 2016, mesmo dia em que Moro divulgou a conversa na qual Lula falava sobre a “República de Curitiba” com a então presidente Dilma Rousseff. No acampamento, dezenas de pessoas com camisetas verde-amarelas distribuíam adesivos de apoio à Lava Jato. Turistas visitavam o lugar para comprar “Pixulecos” – bonecos que simbolizavam Lula, com roupa de presidiário – e camisetas com estampas do rosto de Moro e frases como “República de Curitiba: aqui se cumpre a lei.” Celebridades passaram por lá. Em agosto de 2016, uma comitiva formada pelos atores Victor Fasano, Luana Piovani, Lucinha Lins e Susana Vieira, além do cantor Raimundo Fagner, foi recebida por Moro. No mesmo agosto, no dia 31, centenas de pessoas se reuniram no “Acampamento da Justiça” para comemorar o impeachment de Dilma. 

Depois da prisão de Lula e da eleição de Jair Bolsonaro (PSL), o “Acampamento da Justiça” foi minguando, segundo seguranças da própria Justiça Federal. Em junho, vieram à tona os primeiros vazamentos de conversas entre procuradores da Lava Jato, revelados pelo The Intercept Brasil. Ao longo do último ano, a Lava Jato sofreu outros reveses no Supremo, como a proibição de  que informações do antigo Coaf sejam usadas em processos sem autorização prévia da Justiça. O STF também decidiu que, quando houver réus que são delatores, o direito de falar por último nos processos é dos que não estão fazendo delação premiada. O acampamento em defesa da Lava Jato foi diminuindo cada vez mais.

Na “Vigília Lula Livre”, graças à decisão do Supremo contra a prisão de condenados em segunda instância, o “Bom-dia, presidente” de sexta-feira (8/11) contou com um coro de mais de duzentas vozes. No início da tarde, os principais advogados de Lula, Cristiano Zanin e Valeska Martins, chegaram à Justiça Federal e foram recebidos pelo juiz federal Danilo Pereira Júnior. O alvará saiu logo depois. 

Dentro do prédio da PF, as regras da prisão de Lula foram afrouxadas, e petistas credenciados como advogados puderam acompanhar o ex-presidente nos trâmites finais. No decorrer dos 580 dias na Polícia Federal, as visitas foram sendo restringidas e, no final, apenas dois advogados sediados em Curitiba visitavam Lula diariamente, um de manhã, outro à tarde; visitas de familiares, amigos e aliados eram permitidas apenas às quintas-feiras. Sentaram-se à mesa dentro da cela de Lula o ex-candidato do PT à Presidência Fernando Haddad, a presidente do partido, deputada Gleisi Hoffmann, o deputado estadual Emidio de Souza e os ex-deputados Wadih Damous e Luiz Eduardo Greenhalgh. Lula pediu a Manoel Caetano, um de seus advogados em Curitiba, para passar um café. No dia a dia, o próprio ex-presidente fazia a função quando recebia visitas: usava a chaleira elétrica disposta na cela para aquecer a água e depois usava um coador de papel. 

 

 

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